segunda-feira, 27 de outubro de 2008

A montanha dos abutres

Imagino as comemorações na mídia no dia em que a terra paulistana tremeu.
- Isabella e, na seqüência, um terremotozinho.- Nunca tivemos um primeiro semestre tão bom.- Em tempo: ainda tem gente morrendo por conta da dengue lá no Rio?- Acredito que sim, mas não tem assunto mais aborrecido no momento.- Não cuspa no prato que comeu, meu caro. A qualquer momento o mosquitinho pode voltar a nos ajudar.
Recomendo vivamente, para esses nossos dias, o filme escrito e dirigido pelo mestre Billy Wilder, de 1951, por aqui traduzido como A Montanha dos Sete Abutres. No filme, Kirk Douglas é um reporter encrenqueiro que sai de vários jornais e acaba encontrando emprego em um pequeno jornal em uma pequena cidade. Resumão: a caminho de uma matéria besta, inútil, desnecessária, como aquelas que falam sobre a vida amorosa de Adriane Galisteu, a sorte grande vem ao seu encontro. Uma mina desaba e um sobrevivente luta para se manter vivo enquanto homens trabalham para retirá-lo de lá.
Kirk consegue entrar na mina e conversar com o homem. Kirk, ao longo dos dias, vai explorando, sugando aquele fato, aquela tragédia. Em outras palavras, vê na desgraça do mineiro a grande chance para sair­ ele, o repórter, não o mineiro,­ daquela pequena cidade e voltar a assumir um bom cargo em um bom jornal, em uma boa cidade. Nas boas locadoras, esse filme é facilmente encontrado.
De volta ao terremoto, Nascimento, no SBT, cortava um doze para conseguir, ao vivo, depoimentos de "vítimas". Na falta delas, contentava-se com telefonemas sensacionais nos quais ouvíamos algumas pessoas afirmarem que "sim, eu senti que alguma coisa tremeu mas passou logo". Ele insistia. Queria muito que alguém tivesse, ao menos, esfolado o joelho na quina de uma mesa. Nenhuma ocorrência desse tipo apareceu até o momento que acompanhei a cobertura.
Obviamente tivemos o parecer de especialistas, sismologistas. Também esses não queriam colaborar. Nenhum deles saiu gritando: "corram, protejam-se! São Paulo acaba de se transformar num importante pólo gerador de tremores. Talvez o mais importante da América Latina".
No rádio ouvi um repórter concluir -­ coisa que não deveria fazer­ - que existe a possibilidade de vir a ocorrer outros tremores no estado. Ele perguntou ao especialista sobre a possibilidade e o especialista disse que não via grande chance. Mas ele foi insistindo. Em certo momento, ainda que a chance fosse de 1 para um milhão, deu-se por satisfeito e nos alertou.
E de passagem por um aparelho de TV, outro repórter pergunta a um bombeiro: "No caso de mais um tremor, o que a a pessoa deve fazer para se proteger?". O bombeiro, com toda sua vasta experiência em tremores, enrolou aqui, ali e eu decidi que não daria mais 2 segundos de audiência para aquele programa.

Márcio AlemãoDe São Paulo

URUBUS E HIENAS

Márcio AlemãoDe São Paulo
Vale a pena comentar sobre os urubus e hienas do caso Eloá?
Talvez valha citar um momento muito interessante, no qual o roto indignou-se com o rasgado. Datena não poupou críticas à "irresponsabilidade" de Sonia Abrão.
Pouco vi, confesso.
Acompanhei à distância e tentei manter este bom distanciamento, que não foi possível porque durante esses eventos ninguém te deixa em paz, esteja você onde estiver.
Mesmo sem querer, ouvi várias sugestões e não posso dizer que alguma tenha feito sentido. "Entra logo lá e mata esse f... " foi a mais ouvida. Pois eu cheguei a imaginar um cenário: todo mundo caindo fora. Cobertura zero, silêncio. Francamente não acho que mudaria o final trágico da história, mas é certo que levaria centenas, milhares de hienas ao desespero.
É provável que um reporter se disfarçasse de carteiro para entrar no prédio com uma micro câmera. É possível que dois se vestissem de zebra, aquela famosa zebra de circo, na esperança que o sequestrador, encantado com a presença do inesperado animal abrisse a janela para jogar um pedaço de pão a ele.
Esforços de todas as partes não seriam poupados para que a determinação de manter o silêncio fosse burlada e o furo jornalístico se realizasse. Não faz muito que fomos brindados com esses excessos, durante o caso Isabella. Escrevi a respeito citando o filme de Billy Wilder, "A Montanha dos 7 Abutres" (leia aqui).
Quem sabe não tenha chegado o momento de discutir com maior seriedade essa questão: como reagem esses psicopatas quando a mídia faz deles uma celebridade, ainda que seja do mal? Já fizeram esse estudo? Não seria bom fazê-lo?
O que eu sei é o que vejo em filmes. Em determinado momento eles percebem que foram muito além da conta. Tão além que não acreditam no perdão ou na "suavização" da eventual pena. Não existe saída, por mais que os negociadores insistam em dizer o contrário.
Isso, esclareço mais uma vez, é o que vejo em filmes.
Fato é: o caso rendeu boa audiência para quem se aproveitou da tragédia. E não tem sido muito diferente o noticiário econômico. São milhões de deseperados no mundo. Os negociadores insistem: "não vendam todas suas ações; não saquem o dinheiro dos bancos, as coisas irão melhorar".
Totalmente alucinados, eles não ouvem e vendem tudo e sacam tudo e a quebradeira é geral e as pessoas começarão a pular de sacadas, estourar miolos e audiência estará garantida.
Não chegaremos a esse ponto, é claro. E vou além em uma aposta: as pessoas estão ficando fartas do jornalismo carniceiro. Alguém se lembra do extinto "O Povo na TV"? Alguém se lembra do sucesso do Ratinho? É por aí a minha aposta.
Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar. Fale com Márcio Alemão: marcio.alemao@terra.com.br