O primeiro emprego que tive na vida foi no setor público. Um amigo da universidade deu a dica. A biblioteca da Faculdade de História da Universidade de São Paulo (ele acabara de entrar na de Geografia) estava procurando gente para recatalogar todo o acervo de livros. Uns 17 mil volumes.
Havia algumas vantagens. Teria um salário razoável, acesso ilimitado a todos aqueles livros e, de quebra, conheceria as garotas bonitas da História. Mas o que eu não esperava nesse primeiro emprego era a ausência quase absoluta de cobranças, de quem quer que fosse.
Na época, a biblioteca devia ter cerca de dez funcionários, todos mais velhos e há vários anos trabalhando no local. Muitos com estabilidade. Usar o verbo trabalhar é até um pouco exagerado porque ninguém fazia muita coisa. Éramos muitos para pouco serviço (ou cobrança), o que dava uma margem enorme para o corpo mole.
Recém-contratado, me esforcei no início. Durante várias semanas, andava atarefado com pilhas de livros em um carrinho pelos corredores da biblioteca. Anotava detalhes em fichas que depois eram datilografadas, xerocadas e arrumadas em ordem dentro de um gaveteiro. Mas, aos poucos, fui construindo a firme convicção de que trabalhava demais.
Meus colegas de biblioteca faziam muito menos do que eu. E a hora do cafezinho? Era um despropósito total o tempo que aqueles funcionários consumiam para subir a rampa interna do prédio até se instalarem no segundo andar para tomar café e fumar incontáveis cigarros. Como ainda não gostava de café e não fumava, eu também tratava de enganar o Estado lendo os livros que era pago para catalogar.
A experiência durou pouco e logo tomei outro rumo.
Na semana passada, o presidente Lula afirmou que "choque de gestão" é contratar mais funcionários públicos. Não é tentar enxugar ou cobrar eficiência de um Estado que já suga em impostos 36% do PIB para oferecer os serviços que conhecemos.
É evidente que a estabilidade do emprego público (mãe de muitos acomodados) é necessária para garantir independência às sucessivas trocas de comando político. Mas é absurdo que, com raríssimas exceções, não existam controles, estatísticas e cobranças sistemáticas desse funcionalismo pago pela sociedade.Sequer prêmios aos mais eficientes.
Como diz Yoshiaki Nakano, economista especialista nessa área, quando o presidente Lula decide contratar um funcionário, ele está aumentando os gastos do governo para os próximos 40 anos ou mais. "Pagando salário duas a três vezes maior do que é pago no setor privado", observa Nakano, e exigindo uma produtividade que é certamente menor.
Muitos acham que impor a lógica do setor privado capitalista para a área pública é um desvirtuamento, um "nivelamento por baixo" que pode comprometer a qualidade e a independência dessas funções. Na minha breve experiência pessoal, não tenho dúvidas de que hoje colocaria quase todos os meus ex-colegas da USP no olho da rua. Inclusive eu.
No mínimo, faria com que suassem um pouco mais pelo dinheiro dos meus impostos.
Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras
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